segunda-feira, 8 de março de 2010

01- This is how I think + When I was a child




Depois de mudar o meu processo de programação de músicas por conta de meus estudos de harmonia eu fiz um teste na escala de C#m que me rendeu mais uma surpresa. Em vez de alternar acorde (x2) acorde (x2) eu tentei fazer acorde (x3) acorde (x). Isso trouxe um outro espírito para os meus testes e de repente eu estava com uma canção inesquecível, pronta em poucos minutos. Fiquei muito contente com a eficácia deste processo. Criei uma linha melódica com variações quase randômicas que se encaixam e criam uma deliciosa progressão que segue firme pela canção toda. Depois dela pronta, fiz alguns testes e percebi que se tratava de uma canção de adição, que deveria mostrar para as pessoas que cada faixa de áudio fazia uma coisa. Essa será uma boa forma de começar um EP: provando que a sobeposição de vozes é crucial mas não essencial. Neste processo de adição acabei por mudar um pouco a base da percussão e criei algo meio old school que ficou bem interessante, do qual eu me orgulho bastante.


Nunca a honestidade foi tão produtiva. De tanto estudar The Fool on the Hill eu acabei por me apropriar de um dos acordes da canção (Bm7) e o alternei com outro (Em7). Como isso funcionou muito bem eu decidi percorrer alguns caminhos simples do pop e desdobrar essa variação em algo legal. A melodia ficou inteira concentrada na voz, que canta a letra mais honesta que eu fiz até hoje: 

"When I was a child 
I used to be so happy"

Com isso eu acabei por trabalhar com o conceito de variação mínima e fiz tudo como uma alternância repetida que parece pobre mas revela em si um grande brilho. Durante um tempo essa era a minha canção favorita e, de tanto treinar, eu acabei adicionando uma outra variável que é quando o acorde raiz volta para desaguar em um F#m, que vai para um D, que é quando eu revelo para as pessoas a escala da canção. Ela é simples e intrincada ao mesmo tempo. Na introdução há também um acorde de G, que volta no refrão. Fiquei muito feliz com o resultado e senti que dessa vez eu havia encontrado a minha voz, finalmente.

02 - Berenice, se segura! Nós vamos bater!





Essa canção é um exercício. É uma tentativa de ir de um ponto ao outro do ciclo de quintas. Apenas com um elaborado jogo de subtrações de sustenidos e transposições é que consegui impregná-la com uma cadência fluida que faz todo o sentido e não é ofensiva. Não tento ostenar o exercício em si mas desdobrá-lo para alcançar efeitos diferentes. Essa canção é tudo menos monótona.
Ela começou quando eu estava conversando com o Joéverson no telefone e eu estava pensando no acorde de C#m, em uma progressão do estilo das que eu fazia. Porém em algum momento eu acabei tendo acesso a essa idéia de fazer a cançao diminuir o número de sustenidos e manter uma coerência. Descobri que certos movimentos e certos padrões de progressões se repetem em diferentes escalas. Então tudo se encaixou. Até então eu estava trabalhando com flautas, em uma alegre sucessão de C#m e Asus4. O resto brotou no momento da programação. Usei algumas notas do fade as the wind blows, brinquei bastante com variações mínimas e com vozes simultâneas fora de seus acordes, o que cria novas formas de textura. Essa é a canção mais bem feita até agora. Não digo que é a melhor mas é uma das minhas favoritas.

03 - Song for autistik kids (repetition # 2)





Essa canção não saía de minha cabeça e decidi então fazer uma nova versão dela. Na mesma linha das repetições obssessivas, decidi repetir os mesmos movimentos - agora mais complexos - em diferentes acordes e fazer deles algo mais grandioso mas igualmente desorientador. Essa canção é bem mais insconstante que sua original e contém diferentes passagens de acordes mas mantém-se no espírito de trabalhar sobre um padrão orientador. A velocidade dela originalmente é de 93 BPM mas quando eu a executo mais rapidamente ela possui um apelo maior. Também, quando a música não apresenta mais nenhuma passagem inédita adicionei a 7a nos acordes e ganhei outros sabores, que podem ligá-la a outras canções.

04 - Going East




Quando eu descobri que outras escalas eram viáveis eu decidi fazer um teste e acabei com o riff inicial de Going East. Esse nome veio pelo fato dele evocar algo de exótico para a canção. A base saiu no teclado e então eu programei a canção e pela primeira vez me utilizei dos efeitos de notas randômicas para criar um sabor a mais à canção. Ela segue um padrão diferente, como uma valsa (123,123) mas é bem encaixada e funciona muito bem na prática. Eu terminei essa canção no primeiro semestre de 2009 mas de alguma forma ela havia ficado perdida em minha memória apenas como um experimento. Fiz alguns ajustes e hoje a canção fica em pé sozinha, sólida. O grande segredo dela é repetir o riff uma oitava abaixo e alternar essas vozes para criar um padrão diferente de dramaticidade para a canção. O mais interessante é que ela funciona completa no teclado, de onde saiu integralmente.

05 - Rollin'n Spinning




Essa é uma daquelas canções que demora meses e meses para sair de tão simples que são. Tudo começou quando eu estava estudando a idéia de simetria de intervalos e acabei me apaixonando por esse movimento simples no qual saímos de G#, passamos por A# e B. Depois, vamos para o C#, D# e E. Não preciso dizer muito. A canção não saía disso então resolvi programá-la, que foi quando consegui encontrar algumas soluções criativas para ela sair do lugar. Depois, ao transpô-la ao piano tudo se encaixa e um ritmo de rock'n roll aparece. Eu não segui a progressão de acordes deste estilo mas disfarcei a minha sequência dentro do ritmo para que a canção não perca a sua força mas traga mudanças.

06 - Wonder Wheel chair




Quando eu tive uma "revelação" no youtube de como funcionava harmonia, decidi estudar um pouco e esse foi um dos primeiros esforços válidos desses estudos. Eu aprendi a contar quais acordes se encaixam perfeitamente em uma escala sem acidentes e isso aumentou as minhas possibilidades. Tentando aqui e ali, fazendo testes e estudos eu acabei por construir uma canção bem convencional em dezembro de 2009, que trabalha na escala de C#m. Ela é convencional pois existe uma harmonia e uma melodia independentes. Usando diferentes vozes para diferentes tarefas é possível fazer isso sem grandes dificuldades. A primeira versão parecia promissora mas estava bastante desconexa. Depois de vários testes consegui equilibrar os volumes de tudo e permitir que a harmonia não sufocasse a melodia. Ainda, após estes testes, voltei a usar apenas timbres de piano para deixá-la mais uniforme e então ela estava pronta!

07 - Somewhere far away





Um dia em janeiro eu liguei para o Joéverson e passamos horas conversando. Enquanto estava no telefone o início dessa canção saiu, ,um acorde de C#m seguido de um Asus4... depois disso veio um D e um C#sus4. Simples assim. Eu resolvi desenvolvê-la e quando percebi era algo muito similar à Fade as the Wind blows... o que fiz foi adicionar outras notas com a mão esquerda para não repetir certos padrões de cadência e para conferir outras variações tonais a acordes tão conhecidos. O resultado ficoui ótimo mas era pequeno demais. Depois de pensar e fazer alguns testes eu percebi que precisava programá-la como uma valsa e fazer as coisas se encaixarem. A velocidade dessa canção trouxe o grande diferencial e todas as lições aprendidas com a Metamorphosis 1 do Philip Glass estão aqui. Usei simples cadências de acorde para empurrar a canção sempre para frente e usei leves alternâncias na hora de programá-la para deixar a canção interessante. O grande forte dela é ser previsível mas em uma outra forma de previsibilidade.

08 - Thinking



Logo depois que voltei do Uruguay eu fiz essa peça que não tem paralelos com outras coisas que escrevi. Um pequeno concerto de 4 flautas que flutuam pela escala e percorrem sentimentos subterrâneos, cruzam-se e repetem padrões que as fazem andar para longe de nós mesmos. Eu lembro de ter composto essa canção em um espaço muito curto de tempo (talvez tenham sido uns 2 dias de trabalho) e depois eu a mesclei com algumas fotos minhas de viagem e coloquei no Youtube. Se não fosse por isso eu teria perdido essa canção para sempre! Ela não entrou no Golden Years pois era completamente distinta de tudo o que eu fazia e parecia muito séria. As pessoas não conseguem encarar o pop escancarado que há nesta canção e se deixam levar pela emoção dela, que pontua repetição e distância a todo instante.

09 - Fade as the wind blows




Quando a Thaísa me apresentou oficialmente o teclado essa foi a segunda sequência de acordes que eu fiz. Ela sempre pareceu muito tocante para mim e eu só fui entender como ela funciona em 2010, quando tentei programá-la mais uma vez, mas desta vez carregando a infuência do que havia aprendido até então. Ela traz à tona certos acidentes que eu jamais conseguiria prever se escrevesse a música tecnicamente e tudo funciona muito bem. Ela é triste e não traz esperanças fáceis mas acho que sua eloquência prende as pessoas de forma magnética. Quando executada ao piano ela fica muito legal mas eu não consegui criar uma melodia independente para ela. Por isso decidi trabalhar com as extensões dos acordes para ver onde conseguia chegar e o resultado ficou satisfatório. Ainda não está exatamente como poderia ser, em uma explosão sentimental mas está valendo. Fiquei satisfeito.

Porém, depois de muita insistência, a melodia surgiu, quase como um exercício para integrar a penúltima faixa com esse encerramento do EP. Uma nova voz, de flautas emerge e com ela temos uma melodia bem simplificada mas que dá conta de contrastar com os acordes. Também um discreto de baixo de duas notas pontua o ritmo da canção e agora ela ganha uma outra força.